Nada mais caótico e mais sofrido do que o intermediário.
O que já não é mais UM, mas ainda não chegou a Dois.
O Um é inteiro. Sabe a que veio. Há nele coesão e ausência de conflitos.
O Meio já não é mais Um, nem chegou a Dois. É a nota dissonante, é o meio tom.
Já não lhe é possível viver entre os Uns porque diferenciou-se deles.
Ainda não é possível viver na tribo Dois porque está a caminho.
Evoluir (seja em qualquer segmento da vida) desloca o ser da condição Um, rumo à condição Dois.
Mas no trajeto ele perde a sua força, perde a sua identidade, fica cinza.
Coloco isto em números porque foi a comparação que me veio à mente mas poderia citar
muitas outras. Ninguém sai do preto para o branco sem passar pelo cinza.
Ninguem sai de uma temperatura fria para uma quente sem passar pela morna.
Ninguém experimenta sinais de uma inteligência que se dilata sem experimentar concomitantemente uma imensa solidão.
Ninguém ruma para a virtude (real e sem hipocrisia) sem experimentar o impacto da profunda incompreensão humana.
O intermediário incomoda sem querer incomodar.
Passa pela vida quase sempre dolorido e desengajado nos seus vastíssimos horizontes.
Ele sabe mais, ele percebe mais, ele vê mais e sabe que está só.
Nesta ala estão os místicos, os poetas, os visionários, os cientistas, os geniais, os homens do amanhã que provavelmente comporão uma nova raça, um novo porvir.
Já não é possível para ele comportar-se como a maioria, e seus relacionamentos são quase sempre de extremo cansaço, na tentativa vã de que entendam seus pensamentos, sentimentos, necessidades, ideais, sempre situados num patamar que a média ainda não pode enxergar ou sequer cogitar.
Mas esta é a senda da evolução humana: conhecer a posição intermediária entre dois pontos, conhecer a nota dissonante, o cinza, a incompletude, a deslocação, até atingir o outro ponto e tornar-se inteiro junto com outros organismos inteiros (uma ou várias oitavas além), para glória e triunfo da vida e da civilização.
Desc.
Dez/2009
Dedicado a FB